Violet Evergarden: A garota soldado e o seu tudo

Há muito tempo não havia um anime tão antecipado quanto Violet Evergarden. A obra da Kyoto Animation estreiou no dia 11 de janeiro de 2018 e rendeu muita discussão. Desconsiderando uma minoria ignorante a respeito da diferença entre animação e estética visual ou da possibilidade de que um input artístico pode ter alguma contribuição narrativa, é consenso geral de que é uma obra com bastante potencial. Porém, não irei me focar nesses pontos. Violet Evergarden é uma adaptação de uma light novel escrita por Kana Akatsuki. Seu trabalho foi o primeiro e único em oito anos de premiações a receber o Grande Prêmio no Kyoto Animation Awards.

A premiação da Kyoto Animation é bem conhecida por sua rigidez quanto a suas qualificações. Existe um Grande Prêmio e Menções Honrosas para três categorias: Novelas, Mangás e Roteiro (Scenario). Pouquíssimos trabalhos recebem sequer menções honrosas, havendo até mesmo anos nos quais não houve nenhuma menção honrosa para nenhuma das categorias. Tal como dito anteriormente, Violet Evergarden foi o único trabalho em qualquer das três categorias a receber o Grande Prêmio. A declaração sobre o acontecimento foi a seguinte no site da Kyoto Animation durante a divulgação dos vencedores:

“Como resultado, nós elegemos o “Grande Prêmio” na categoria de novela pela primeira vez nesta quinta premiação. Esse trabalho realmente moveu o coração dos juízes. Foi um trabalho que os fez sentir ‘Eu quero mandar isso aqui para o mundo’. ‘Eu quero que muitas pessoas leiam isso’… É difícil criar algo original, interessante e algo que pode ser entretenimento para os outros. Contudo, nós acreditamos que há trabalhos que irão superar essas dificuldades, capturar o coração de muitas pessoas e se tornarão histórias magníficas.”

Não consegui me conter após assistir o primeiro episódio e decidi ler a light novel. A paixão e o investimento da Kyoto Animation no projeto fizeram a minha curiosidade falar mais alto. No momento, não temos uma tradução ou licenciamento oficial de Violet Evergarden no ocidente. Aguardo ansiosamente para que alguma editora adote o projeto e eu possa investir meu dinheiro nessa compra. Enquanto isso, li a tradução feita pela Dennou Translations que é muito bem-escrita, por sinal. Conclui através da minha leitura que concordo com as palavras dos prestigiados juízes a respeito da obra.

No entanto, a light novel é a light novel e o anime é o anime. A Kyoto Animation é conhecida por sua capacidade de ir além de sua fonte primária para estabelecer melhor os personagens e de alterar a história e o contexto de forma a aproveitar melhor os momentos individuais do trabalho original e inserir suas próprias adições e acrescentar mais profundidade a algum aspecto. Esse trabalho magistral é feito não só através dos roteiros criados para o anime, mas também através da direção e de inputs criativos feitos pela equipe de produção. O que irei fazer é analisar episódio a episódio de Violet Evergarden e falar sobre as mudanças advindas de sua adaptação em relação a light novel e ver se eles irão fazer jus ao potencial que querem alcançar ou superar.

A light novel de Violet Evergarden é dividida em dois volumes, já foi finalizada. Os livros tem um total de 13 capítulos distribuídos entre eles. O primeiro episódio do anime adapta o capítulo 8 do segundo volume. No entanto, não se deixe enganar. Os 7 capítulos anteriores não se focaram na vida da Violet antes daquele ponto necessariamente. Na verdade, a narrativa da novela é um conjunto de histórias que abordam perspectivas de personagens diferentes (nunca em primeira pessoa) que interagem com a Violet em diferentes períodos de sua vida. Os capítulos não seguem uma sequência cronológica e acabam por ser um estudo de personagem daquele que adota o ponto de vista da vez. O conjunto desses capítulos como um todo se torna um estudo de personagem sobre Violet Evergarden. Com isso, tenham já em mente que o anime provavelmente será episódico. E também, que não irei contextualizar nada fora do que é tangível ao adaptado durante o próprio episódio. Ou seja, será um texto livre de spoilers para quem está acompanhando o anime.

Acredito que o passado da Violet será contado com mais clareza e detalhes em futuros episódios. Embora existam alguns flashbacks neste capítulo na novel, as cenas utilizadas na adaptação do anime são apenas mencionadas pela própria Violet. Os flashbacks não são narrados por já fazerem parte de outros capítulos a essa altura. Acho que o anime fez um bom trabalho, em quase todos os aspectos, em introduzir essas cenas como elementos de mistério. Ao mesmo tempo como camadas para inferir informações e aprofundar mais os personagens destacados nesse primeiro episódio. No entanto, algo que é particularmente notável e compreensível, é a falta de contextualização política. Algo presente no livro através da narração e também devido ao conhecimento já adquirido de outros capítulos.

Por isso, por exemplo, não é mencionado que o hospital que a Violet se encontra é uma casa de recreação do exército que se tornou um hospital militar devido a quantidade insuficiente de hospitais durante o período de guerra. Provável que pelo mesmo motivo, ele esteja ausente de outros pacientes. Embora Violet esteja num hall público. Existe a possibilidade também de que não foram mostrados outros pacientes pois se passaram 120 dias. O que considero improvável pois há outros pacientes em estado grave além da Violet e que precisaram passar por reabilitação na novel. A nossa protagonista foi parar lá após a batalha final da guerra, devido a gravidade do seu estado após a perda de dois dos seus membros. Algo retratado brevemente no anime que já deveria ser uma resposta para alguns que ficaram em duvida após o episódio. Violet tem um corpo orgânico e é um ser humano. Ela come, dorme e vai ao banheiro igual a todo mundo. Ela não é um robô ou uma boneca.

A cidade mostrada depois, Leiden, é a capital do país Leidenschaftlich. Um dos países da aliança do Sudoeste, vencedora da Guerra Continental. Foi um conflito enorme entre vários países que durou quatro anos. Os males físicos não chegaram a atingir o coração de Leiden apesar disso. A guerra era fronteiriça e a força da capital como maior centro econômico do continente devido a sua força no mercado de trocas e importações protegeram bem o lugar. Ironicamente, é justamente a disparidade relativamente grande entre as condições do sul e do norte que gerou o conflito.

Devido as políticas e sanções implementadas em Leiden, os países do norte iniciaram uma invasão de territórios sulistas para restabelecer seu poder e isso eventualmente se tornou uma guerra. Existiam também, duas instituições religiosas similares que tinham polos de poder em regiões opostas, no leste e no oeste, respectivamente. As duas também tinham interesses nas regiões de domínio das bordas de Leiden por ser uma terra de peregrinação. Acabaram por se juntar a guerra quando os países do leste se aliaram ao norte. Os países do oeste então, para sua própria proteção se aliaram ao sul. O nordeste conquistou um território extremamente importante e esteve próximo de quebrar as fronteiras de Leidenschaftlich. Essa mesma cidade, Intense foi o palco da batalha final e ela era um ponto de interesse muito grande por ser o leito da catedral que era destino das peregrinações religiosas do leste e do oeste. A estratégia do Major Hodgins para a retomada de Intense tornou o Sudoeste vitorioso.

É perfeitamente compreensível que dada as limitações de adaptação que todo o contexto empregado na light novel não esteja presente. No entanto, questiono o motivo pelo qual decidiram que o primeiro episódio deveria adaptar o capítulo 8. Se este capítulo fosse adaptado mais tarde, acredito que ele se beneficiaria mais. Haveria uma gama maior de informações disponíveis e um cenário mais bem estabelecido. Talvez assim conseguiria escapar de algumas armadilhas que acredito que esse primeiro episódio armou. Provavelmente escolheram esse capítulo como primeiro para trabalhar mais rápido a empatia do público em relação a Violet. Eu até acho que esse primeiro episódio vai se tornar melhor em uma futura rewatch, mas acho que ele perde muito da força da obra original por se situar tão no início da narrativa e por alterar algumas coisas.

 

 

A alteração do primeiro episódio que mais me incomoda é a do relacionamento entre o Claudia Hodgins e a Violet. Mesmo ficando claro que ele tem alguns arrependimentos e ressalvas em relação a Violet, isso é um pouco abrupto e ocorre de forma mais rápida no anime. Na light novel, Hodgins vai falar com Violet logo após ela acordar de seu coma e é só através de suas interações com ela que ele passa a humanizá-la e compreender melhor o infortúnio da garota, do lugar que ela teve que assumir no mundo e da visão que as pessoas têm dela. Nós também entendemos o motivo pelo qual Hodgins se aproxima de Violet. Ele possui uma ligação muito forte com o Major Gilbert, a quem ele considerava seu melhor amigo.

A diferença é coisas ocorrem de forma gradual e ao longo de vários meses em que a Violet está se reabilitando após ter seus braços substituídos por próteses mecânicas de batalha. O que o anime fez foi basicamente pular todo esse desenvolvimento. E consequentemente, a maior parte do capítulo ao introduzir Hodgins no final do processo de recuperação da garota. A adaptação não estabelece o laço paterno que Hodgins cria com Violet ao longo desses meses. Na light novel Hodgins arruma um quarto privado para a garota, para que ela não precise se incomodar com os burburinhos dos outros pacientes devido a sua notoriedade e infâmia. É ele quem decide alfabetizar a garota, que até este momento não havia recebido uma educação formal. E ele é fundamental por ter sido a primeira relação de Violet com um ser humano que não fosse o Major GIlbert.

Após a recuperação de Violet e sua alfabetização, ela passa a escrever cartas destinadas ao Major GIlbert constantemente. Sua devoção por ele é de um fervor quase religioso de tão intensa. Acho que o anime faz um bom trabalho de mostrar a obsessão dela. A relação entre Gilbert e Violet é complexa e acho que eles exploraram bem tanto o romantismo dela quanto sua toxicidade extremamente prejudicial para a psique de Violet por causa de sua cega lealdade. Acho que a direção foi excelente em estabelecer o peso disto. Em especial, através da linguagem corporal de Violet, acrescentando ao aspecto de que ela não sabe se expressar tão bem, mas dando uma perspectiva direta pro espectador do que as pessoas que interagem com ela sentem quando tem contato com seu lado mais “sensível”.

Outra coisa que tenho a elogiar da direção é a típica atenção de detalhes da Kyoto Animation. A cena final na qual Violet pede para exercer um cargo específico para Hodgins em especial. Há um momento em que Violet tem seu reflexo exposto num relógio em movimento. O que serve de indício que o tempo para ela finalmente está seguindo adiante agora que ela exerceu sua própria vontade.

No entanto, acho estranho como Violet rejeita a oferta dos Evergarden e as ordens de Hodgins e por consequência, de Gilbert, ao sair da casa deles no anime. Por que para mim, isso já é demonstrar vontade própria. Ela rejeita as ordens em favor de seu próprio interesse, de seu desejo de exercer uma função. Isso não estraga a cena final, por que aqui, Violet rejeita a oferta sem pensar em um contexto maior a não ser sua função como ferramenta. Porém, me deu a impressão de que talvez estejam um pouco perdidos quanto a caracterização de Violet.

Também me incomoda que a cena faz eu sentir que Violet é mais consciente no anime do que na light novel em relação as coisas que acontecem ao redor dela. Acho legal como a garota parece desorientada e confusa nesse contexto, mas de novo, cadê a caracterização? Algo que não é dito no anime, é que Violet possui apenas 14 anos. Talvez 15, devido ao tempo que ela passou no hospital e com os Evergarden. Ela não só viveu no exército desde pequena, ela mau deixou de ser uma criança.  Sinto que isso não fica claro no anime e a ausência desse detalhe acaba quebrando a suspensão de descrença de alguns quanto as inabilidades de Violet.

Para diferenciar o contexto, na light novel, a família Evergarden acolhe Violet por alguns meses após ela sair do hospital. Só que não é Violet que exerce sua vontade para ir embora dali. A matriarca incentiva Hodgins a procurar um outro lugar para Violet. Embora tenha criado um afeto muito grande pela menina, ela sente que a relação entre as duas é muito mais benéfica para si do que para Violet. A garota se familiarizou com os moradores da mansão e os trata bem. Até mesmo demonstra carinho por eles. Porém, Violet só exerce uma coisa por vontade própria: Escrever cartas para Gilbert que nunca recebem uma resposta.

Violet permanece vazia enquanto mora lá. Chegando ao ponto de acumular milhares de cartas em seu quarto. Sofrendo por não ter mais coragem de enviar as mesmas já que acha que está sendo ignorada. Somente após ver o seu estado que Hodgins assume a responsabilidade de mostrar mais do mundo para ela. Contratando Violet e chamando-a para trabalhar em sua agência de correios recém inaugurada em Leiden.

Bem, é o que posso dizer no momento. Acredito que esse episódio ser adaptado como foi talvez crie um problema mais para frente. Não comentarei o motivo dessa crença agora por causa de spoilers. Deixarei apenas o aviso para que tomem cuidado com suas expectativas. De qualquer forma, de maneira geral, foi um bom primeiro episódio. A direção foi forte e pontual, mas não posso dizer que gosto das alterações que fizeram na história. Não acho que está no mesmo nível da história original.

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