Arco x Arco Bleach Parte 1: Pré Soul Society

Antes de mais nada eu gostaria de apresentar o conceito por trás dessa série de textos, embora eu imagine já estar bem claro: Eu pretendo pegar aqueles mangás gigantes e dividí-los em partes menores, assim facilitando uma análise mais pontual, e para estrear/testar o formato, nada melhor que a obra que todos amam odiar, Bleach.

Com esses textos eu também pretendo encontrar onde raios Bleach foi de uma história promissora para uma das piores obras de alguma relevância que a Jump já lançou junto com coisas como Reborn e Cavaleiros do Zodíaco enfim, espero conseguir chegar ao final de Bleach e não enlouquecer no processo.

Ficha técnica rápida, Bleach estreou em 7 de agosto de 2001, escrito e desenhado por Tite Kubo, vindo do recém cancelado Zombiepowder, ou seja, diferentemente de seus “rivais” Kishimoto e Oda, Kubo não estourou na primeira serialização e é meio irônico pensar que o, em teoria, mais experiente produziria a obra mais amadora quando se trata de estrutura de  roteiro mas chega de enrolação e vamos falar do primeiro arco de Bleach (nem é preciso avisar que tem spoilers, mas é só até o capítulo 56 do mangá).

Quando Bleach não se levava tão a sério

Um capítulo de retcons

Certo, pra começar essa revisita à Bleach, vamos passar um pente mais fino no primeiro capítulo, que tenta estabelecer as bases dos conceitos do mangá. Importante dizer que enquanto primeiro capítulo, ele funciona muito bem (até o Ichigo pegar os poderes), apresenta o protagonista, constrói em cima dele e cria, de certa forma, uma mitologia de mundo.

Mas, o que mais se destacou nessa revisita, foi a quantidade absurda de retcons, que fazem com que o futuro estrague o passado em perspectiva, e são elas:

  • O temperamento delinquente do Ichigo, que depois sofre da síndrome de Seiya;
  • O fato do pai do Ichigo ser facilmente nocauteado por um hollow bunda e agir de maneira que, se não existisse um shinigami ali perto, estariam todos mortos a essa altura;
  • O fato da Rukia ser derrotada por um hollow bosta;
  • O trabalho dos Shinigamis;
  • A ideia de apresentação de personagens de forma estilizada (algo que é abandonado NO PRÓPRIO CAPÍTULO, tem algum sinal maior da total falta de planejamento?);

Fora isso, o capítulo até funciona bem, com exceção da luta final, totalmente anti-climática em uma tentativa mais do que falha de colocar o Ichigo como o senhor fodão, mas, olhando do futuro, o primeiro capítulo torna-se praticamente descartável, dada a quantidade absurda de retcons feitas, que destroem o conceito de um primeiro capítulo expositor de conceitos (melhor construção de frase no texto todo).

O início da enrolação

Uma coisa que é muito clara em Bleach, ao menos nos arcos finais, é a quantidade absurda de capítulos que ele levava para contar coisas simples, e ao ler o primeiro capítulo, eu achava que levaria algum tempo pra ele começar com isso, MAAAS eu estava enganado.

E para falar sobre a enrolação, eu preciso falar um pouco sobre qual estilo Bleach está empregando nesse início: Basicamente, ele apresenta um personagem e esse personagem (normalmente do inútil núcleo escolar do Ichigo) está, por algum motivo, com problemas, seja sendo caçado pelo irmão, protegendo um periquito ou mesmo sendo um quincy (o que não é um problema para o personagem, mas para o protagonista). Até aí, temos uma sequência razoavelmente consistente, se não fosse pelo fato de que cada mini arco dura MUITO mais do que deveria.

E como exemplo central disso, peguemos o arco do periquito do Chad que dura SEIS CAPÍTULOS, e conta a história de um menininho que foi enganado por um hollow pra ficar preso no corpo de um periquito, além de um plot totalmente desnecessário (com vilões megalomaníacos que explicam o próprio poder e deixam a mocinha fugir só para torturá-la), ainda apresenta uma série de inconsistências com Bleach, dentre elas:

  • Apresentar o conceito de inferno. nunca mais citado na obra;
  • Apresentar a ideia de que um hollow consegue falar com um humano normal;
  • Apresentar o conceito de que um hollow consegue transferir almas de um corpo vivo pra outro;
  • Um final em que o Ichigo deliberadamente tortura um hollow, e nada disso se torna relevante, nem para a psique do personagem, nem para ninguém a sua volta.

De quebra esse ainda é o mini-arco que define o Chad de tal forma, que ele não possui qualquer evolução de personagem até o final da obra, tudo isso em dois quadros.

MUITOS núcleos, e ainda vai piorar…

Aqui temos um exemplo de personagem com EXTREMA relevância

Antes de seguir em frente, gostaria de retomar a ideia de que o núcleo da escola é totalmente inútil. Isso se dá, principalmente pela quantidade gigantesca de núcleos e relações, que o Kubo apresenta, mas nunca realmente usa, é quase uma antítese do que a Hiromo Arakawa (Gin no Saji, Arslan Senki) faz em Fullmetal Alchemist. Aqui, quase nenhuma das relações é relevante e os personagens (principalmente do núcleo escolar) não se sustentam sozinhos, principalmente quando todas as funções que eles poderiam exercer (amizade, laços com humanos, comédia, donzelas em perigo) podem ser realizadas pelo núcleo da família do Ichigo, ou o núcleo do Urahara, ou a pseudo party principal, sem qualquer perda relevante.

Por falar em party principal, é engraçado pensar que o Chad é basicamente um repeteco do Ichigo, só que mais estoico de maneira geral. Quero dizer, os dois são a figura do valentão com coração de ouro, então rolou certa falta de criatividade na elaboração do nosso mexicano favorito (nem um pouco) dos mangás.

Nem tudo está perdido (por hora)

Com tudo que eu falei até aqui, talvez dê a impressão que nada se salva nesse começo de Bleach, mas este não chega a ser o caso. Coisas como quadrinização e pacing estão muito melhores do que no final do mangá, aqui ele ainda sabe fazer humor pra ter algumas quebras na “seriedade” da história e principalmente nesse começo, o mini-arco da vingança dele é consideravelmente bom (descartando retcons futuros), pois com esse arco o personagem do Ichigo ganha mais algumas pinceladas de camadas (mesmo que elas sejam descartadas ao longo da obra) com ele se sentindo culpado pela morte da mãe, além disso o relacionamento entre ele e a Rukia se aprofunda, é um arco em que a motivação do protagonista não é o genérico salvar os amigos, em suma, é o primeiro mini-arco realmente relevante de Bleach.

Pequenos acertos….grandes problemas

Um plot point nunca usado pelo Kubo

Porém, passado o arco retornam os problemas, dentre eles a falta de sensação do que é importante. Quando um arco como o da “vingança do Ichigo” tem a mesma duração de um arco do Don Kanonji, fica difícil decidir o que é relevante de verdade em Bleach.

Junto a isso temos um grande problema de construção: A falta da mãe do Ichigo não é um problema até ele usá-la em um arco, e pós arco não importa mais por muito tempo. Esse sinal de falta de planejamento é o que, a longo prazo, vai enforcar o mangá. Claro que eu não quero que o Ichigo fale a cada três páginas como sente falta da mãe, mas uma construção e sinais nas entrelinhas seria no mínimo necessário pelo apresentado no dito arco.

Voltando à ideia da falta de foco, queria te lembrar que existe um capítulo inteiro (que não é nem extra, a numeração dele é a comum mesmo) sobre uma piada de como o Kon não quer mais viver na casa do Ichigo. Além de Kon ser um personagem que poderia ser interessante, mas é um lixo, ainda temos o problema do foco, esse capítulo não serve pra NADA na obra que é Bleach, e nem pelo retcon, como é o caso do capítulo 1, é um capítulo que nasceu inútil.

O quincy, o latino e os peitos

Pós o pequeno quase filler que é Don Kanonji, e da descartável fuga do Kon, voltamos à história de Bleach, que com sua parca construção conseguiu construir até bem a chegada de um rival com uma filosofia diferente. Até aqui fomos aprendendo aos poucos como os hollows funcionam, como um espírito vira um hollow, onde eles vivem quando não estão no mundo humano, o que acontece com eles após serem derrotados por um shinigami.

Diante disso, nada mais lógico do que apresentar alguém/algum grupo cuja filosofia vá de embate aos shinigamis, e com esse grupo sendo formado por humanos, esses questionamentos ficariam mais interessantes (caso o Kubo fosse um bom escritor), uma vez que o Ichigo, se vendo como um humano, poderia se questionar quanto a qual método é melhor (algo que não acontece em momento algum).

Mas essa parte da história também serve para estabelecer a party principal a partir de agora (ou seja, estamos chegando ao final deste arco e por consequência deste texto), e são apresentados os poderes da Inoue e do Chad, ambos derivados do Ichigo (até algum retcon mudar isso lá no arco dos Fullbringers). Esses momentos também servem para dar mais algumas pinceladas nos personagens de ambos e fazerem piadas com estupro no caso da Orihime… grande Kubo.

Os finalmentes

Após o final desse mini-arco, entramos em um build-up que vai culminar no segundo arco, apresentando o Renji e o Byakuya, este segundo derrotando o Ichigo e quebrando sua espada (pela primeira de muitas vezes no mangá). Além disso, esse finalzinho mostra a ideia das espadas mudarem de forma, ponto que vai ser muito explorado pela obra até o seu fim.

Algo interessante que eu notei é como os shinigamis são arrogantes e se acham superiores aos humanos. Outra coisa digna de destaque é como o Renji era um grande sádico, quase um proto Zaraki, algo bem diferente da psique dele no restante da série (mais um, dos inúmeros sinais de que o planejamento do Kubo não alcança 10 capítulos).

E com isso fechamos o primeiro Arco x Arco. Foi uma experiência interessante, ver como o traço era amador, mas em compensação o pacing era muito melhor. Ver que desde aqui ele adora fazer inimigos explicarem poderes, perde tempo com coisas desnecessárias e adora enfiar uma tonelada de personagens descartáveis. Também é interessante ver como ele perdeu o tom cômico do começo por algo mais “sério”, talvez buscando uma profundidade que ele nunca alcançou, principalmente porque todas as vezes em que ele traz algo levemente sutil nas entrelinhas, já acaba se sentindo na obrigação de esfregar na cara do leitor. Mas pra fechar esse texto com um elogio, diria que o arco acaba com a arte dele quase no melhor ponto de refinamento da série (algo que ele perdeu, e fica principalmente evidente no arco dos quincys).

 

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